domingo, 14 de fevereiro de 2016

Lula, Brasil: ¿a queda de um mito?

Um líder histórico, que trouxe a ilusão aos mais pobres, e erradicou uma parte substancial da pobreza brasileira, que acabou o seu segundo mandato mitificado por uma aprovação popular de 80%, vê a sua imagem ser profundamente erodida por investigações judiciais, que o retiram do pedestal da ética e da moral, que pregou durante décadas. A principal causa deste aperto tem a ver com a sua incapacidade, ou falta de vontade de reformar o sistema político. Encontrei-me com ele meses antes da tomada de posse, e avisei-o de que se não aproveitasse a estrondosa votação que se anunciava (mais de 50 milhões de votos), para proceder a uma profunda reforma política e constitucional, dificilmente conseguiria governar um País, com regras, que só permitem a governabilidade com a compra de votos (mensalões, petrolões, etç.)
Lula preferiu ser um gestor da herança recebida, dando-lhe uma direcção mais pró-social, mantendo as suas qualidades inatas de grande negociador e equilibrista.
Os pobres ganharam, e muito, com a sua gestão, a economia, à boleia do preço das "commodities" cresceu exponencionalmente. A classe média teve um enorme "up-grading",viajando e comprando pelo mundo fora (que o digam os lojistas do Freeport  e das lojas de luxo da Avenida da Liberdade). Os lucros das empresas e a sua internacionalização foram meteóricos; Mas tudo à custa da manutenção de um sistema político apodrecido que à custa desse bem estar global, aprofundou a já velha "festança" na prática da troca, compra e venda de favores políticos.
Saiu em glória, mas cometeu um erro trágico muito comum aos líderes carismáticos: escolher o seu sucessor, que não pusesse em causa a imagem e glória dos seus mandatos. É assim que escolhe Dilma Rousseff, que ele apadrinhou, apresentando-a como o supra sumo da competência, da gestão, uma enorme economista e uma superlativa estadista. Ora, Dilma não tinha, nem tem nenhuma dessas qualidades. Gostou do poder apesar de nem saber o que com ele fazer. Lula, que pensava que Dilma lhe ía prepara o regresso ao Planalto, começou a ser posto por ela em "set-aside", ignorado.
Com essa terrível aposta cavou a sua própria sepultura. O PT, os seus aliados políticos, designadamnete o MPDB, ajudaram a cavar mais a cova. A direita, com medo de um putativo regresso seu,fez dele o alvo a abater. A cumplicidade Justiça, mídia, oposição, desmultiplica-se em lançar suspeitas, que enquanto não forem esclarecidas degradam e minam a sua imagem. Há já quem fale em acabar, como Sócrates, na prisão. Ele é um sobrevivente e também um feroz animal político, mas tem a "selva" minada, e os seus amigos presos e desqualificados.
Perguntar-me-ão: Lula está politicamente morto? A minha resposta é não, mas está quase ferido de morte. A morte de um mito, que, a morrer, morre pelos seus próprios erros e omissões.
Não será nem o primeiro, nem o ultimo. Mas para quem com ele privou e foi seu amigo, como eu, que conheceu o seu potencial único de sagacidade, inteligência prática e emocional, e de coragem física e até política, tem que estar profundamente triste com este triste fim anunciado. Sem honra, nem glória.http://www.ft.com/intl/cms/s/0/60b64c02-d10a-11e5-986a-62c79fcbcead.html#axzz409FopqMc

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