quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Eleições americanas: "noite de terror" só comparável com a "noite dos cristais"

"A Tragédia aconteceu". Como é possível que o povo americano que em duas eleições seguidas elegeu o primeiro presidente negro, da história dos Estados Unidos, tenha agora elegido um presidente com um discurso racista, sexista e populista? Só na América seria possível uma "revolução" desta natureza.
As sondagens, infelizmente cumpriram a regra, falharam estrondosamente, como tem falhado em toda a parte. Deixaram de ser um instrumento fiável, para se transformarem numa autêntica gargalhada. Daqui para a frente, a única sondagem credível é a das urnas, nada mais. Ou porque os meios de recolha de opiniões não esteja adequado ás novas realidades sociológicas e tecnológicas, ou porque as amostras não estão conformes com as profundas alterações nos diversos agregados, demográficos, territoriais e eleitorais. Doravante poderão ser úteis no marketing comercial, para o lançamento de qualquer produto ou serviço, mas como instrumentos de previsão política tornaram-se, inclusivamente, perversas.
Trump ganhou, como ganhou o Brexit no Reino Unido, como se prepara para ganhar, na primeira volta das presidenciais francesas, Martine Le Pen.
É o eleitorado a apostar no "quanto pior melhor", no discurso populista demagógico e xenófobo, no contra sistema, mesmo que se trate num voto no escuro. Mas as políticas neoliberais castigaram tanto as classes médias e extratos significativos da classe trabalhadora, que até o desconhecido e incerto se torna mais apelativo do que o "establishment".
Quer nos Estados Unidos, no Reino Unido e na França, a adesão ao discurso nacionalista, racista e de fratura social, parte das camadas mais populares, que sempre votaram à esquerda, militando inclusive nos partidos e sindicatos comunistas.
Utilizando um anglicismo, é o "up side down". O que há meia dúzia de anos atrás seria impossível, tornou-se possível, natural e expectável.
Os que ontem acreditavam nos "amanhãs que cantam", acreditam agora no "canto das sereias". Daqui a quatro anos estarão mais desiludidos, enraivecidos e descrentes do que estão hoje, porque a maioria das promessas demagógicas que lhes fizeram não serão realizáveis nem concretizadas. A "real politik" não permitirá. Trump ficará a anos luz de concretizar a "revolução" a que se propunha. Teve a frieza de selecionar bem os alvos, apresentando a cada um, um envelope cheio de promessas e "boas intenções", só para os iludir uma vez mais e, daí, captar os seus votos "ingénuos". Aplicou com sucesso o "marketing" que tanto o ajudou na vida a ganhar milhares de milhões. No fim, vai governar para os mesmos, respeitar a sua profissão de fé capitalista e neoliberal. As suas velhas cumplicidades e interesses. Distribuirá uns "peanuts", mas não tocará no "core" das promessas feitas, que tanto galvanizaram milhares de pobres americanos, angariando o seu entusiasmo e os seus votos. Fará alguma pirotecnia em questões acessórias, não tocando no essencial; o que será mal para os incrédulos que nele apostaram, mas bom para o mundo, que estaria fortemente ameaçado se ele concretizasse as suas propostas que tanto pânico criaram. 
 Nem muros, nem isolacionismos, nem deportações. Nunca foi essa a sua vontade. Somente um truque eleitoral, mais um.
O seu discurso de vitória constituiu, já, a primeira viragem e demarcação dos "produtos" mais agressivos e mais apetecidos, vendidos nessa gigantesca campanha promocional a que se dedicou desde que foi nomeado candidato na Convenção Republicana.
Apanhados os votos chegou a hora do pragmatismo e das subtis inflexões. Só por isso podemos ficar, um pouco menos, aterrorizados e alarmados com a sua eleição. A América é forte. O Presidente americano é poderosíssimo, mas, hoje, ninguém poderá governar contra o mundo, por mais fanfarrão que seja e, grosso que fale.
Hillary, talvez a política mais bem preparada que a América teve, para a função, perdeu. O golpe de misericórdia na sua campanha foi perpetrado pelo FBI, ao lançar uma terrível suspeição e, putativa criminalização, a dez dias da data das eleições, para na sua ante véspera vir dizer que nada de grave tinha feito, num momento em que a candidatura já tinha sido deixada políticamente agónica, de forma irreversível. "Tiro" certeiro na sua imagem. Algo nunca visto, nem julgado possível em democracia. Se tivesse acontecido na África estaria o Congresso americano a vociferar contra esse golpe hediondo e, ameaçando com sanções.
Com Trump sai também vencedor destas eleições o inominável Putin, que colocou o seu KGB ao serviço da campanha do magnata. Foi-lhe oferecida de bandeja a hipótese de, à sombra de Trump, recuperar para a Rússia, uma parte do protagonismo perdido na cena internacional.
Quo Vadis América?
 

Sem comentários:

Enviar um comentário